Brecheret

A inauguração da I Bienal de São Paulo em 1951 marcou uma nova etapa na História da Arte no Brasil.
Historiadores e críticos de arte apontam a data como divisor de águas para diversos aspectos de nossa produção e vários artistas testemunham o impacto que a visita causou em seu trabalho. Para alguns pintores e escultores, a participação no evento significou trazer a público alterações que já ocorriam em sua obra.

Ao olhar em retrospecto, observa-se que o júri ao conceder o I Prêmio Nacional de Escultura Nacional da I Bienal de São Paulo à terracota Índio e a Suaçuapara de Victor Brecheret, colocou em evidência uma vertente de seu trabalho que se acentuara a partir da metade dos anos 1940 e se prolongaria até seus últimos trabalhos, em 1955. Trata-se da busca pelo que considerava ser a escultura “legitimamente nossa” , com a introdução de aspectos relacionados ao índio brasileiro, manifestos em alterações na tipologia de seus personagens, no uso de grafismos específicos e outros tratamentos técnicos, na escolha dos temas e, em alguns casos, na apropriação de pedras como suporte.

Sensibilidade ao perceber um caminho a seguir, conselho de amigo ou intenção de ver cumprido o projeto modernista, a verdade é que Mário de Andrade em 1921 mencionava a questão com muita antecedência, ao sugerir que Brecheret deixasse de lado as influências estrangeiras e lhe atribuir a missão de estudar “os tipos de nossos índios, tipos não desprovidos de beleza”.

O famoso Monumento às Bandeiras, hoje próximo ao Parque Ibirapuera, ocupou o escultor por décadas.

A figura do índio lá está desde os primeiros projetos dos anos 1920. Se nas primeiras versões se mostravam sob a influência de Arturo Dazzi e Mestrovic, nas seguintes tiveram suas formas depuradas sob influxo do Art Déco.
Em 1946 Brecheret retomou o projeto, dando-lhe sua versão definitiva. Inicia então a elaboração de um novo repertório tanto no que diz respeito ao tratamento da pedra, quanto ao abandono de padrões arcaizantes ligados à escultura européia. Seu mergulho em propostas e imagens relacionadas ao universo indígena tinha por objetivo a melhor caracterização dos personagens e a aproximação do mundo natural, mantendo a majestade de monumento a que se propunha.

Data do período grande quantidade de desenhos – alguns declaradamente projetos para esculturas, outros anotações de idéias fugidias – com a temática indígena. São estudos rápidos de faces, cenas de caça, arcos, movimentos de corpos, onças, peixes, bois, pescarias, lutas, canoas, cobras, homens, mulheres. Desenhos com estudos para padrões de traços, linhas serrilhadas, quadriculados e círculos a serem gravados em incisões mostram uma pré escrita ainda a ser decifrada.

Por vezes o desenho corresponde a uma escultura realizada, por outras a escultura é a síntese de muitos deles.

Em outros casos linhas que traçam possibilidades.

A arte indígena de Brecheret não tem intenção de reproduzir com fidelidade etnográfica uma cultura ou
recuperar a visualidade de determinada região ou era.

Embora algumas obras tragam títulos como Drama Marajoara, Cena Marajoara e Tema Marajoara, o
conjunto aborda com mais propriedade um universo mítico do que um local específico. Discutem um tempo não contado pelos calendários e um local não identificado nos mapas.

A série das pedras roladas, de 1947 e 1948, é exemplar da dimensão legendária a que se refere e desempenha papel de intermediário entre dois mundos. Resgatadas do mar e alteradas por alguns poucos gestos, reforçam sua crença no poder do ato criador do artista e atestam a imersão naquele Éden na natureza. Gravações feitas na superfície do seixo ressaltam suas formas. As diferenças entre texturas e linhas configuram testemunhos rupestres de ações e tempos passados.

Obras como Luta dos Índios Kalapalos, Bartira, Zebu, Piroga, Boizinho e Filha da Terra Roxa apresentam características formal e temática evidente que as colocam dentro da categoria definida como a “arte indígena de Brecheret”. São esculturas que fundem o aspecto tectônico acima mencionado e elementos da experiência escultórica de meados do século XX, em caminho semelhante à pesquisa realizada por Henry Moore, no que diz respeito à relação entre cheios e vazios, eixos de orientação no espaço, bem como a exploração de formas orgânicas e volumes.

A arte indígena de Brecheret não se restringe, nos anos em questão, àquelas que atendam tal tema. Embora não compreenda toda a produção daquele tempo, a nomenclatura também se estende a algumas obras religiosas que identificam a Virgem Maria, a Crucificação e São Francisco de Assis. São esculturas em que, por alterações no volume, no tratamento da superfície e na iconografia tradicional, Brecheret confirma o vaticínio feito por Mário de Andrade várias décadas antes.

Maria Izabel Branco Ribeiro

Victor Brecheret no Japão

Embaixada do Brasil em Tóquio
05 a 21 de setembro de 2001

A Arte Marajoara de Victor Brecheret

Centro Cultural Correios Rio de Janeiro
21 de setembro a 31 de outubro de 2004

A Arte Indígena de Victor Brecheret

CAIXA Cultural Brasília
25 de julho a 26 de agosto de 2007

CAIXA Cultural Curitiba
09 de abril a 11 de maio de 2008

CAIXA Cultural Salvador
12 de maio a 28 de junho de 2009

CAIXA Cultural Rio de Janeiro
13 de julho a 23 de agosto de 2009

CAIXA Cultural São Paulo
04 de novembro de 2009 a 10 de janeiro de 2010

Centro Cultural Correios Recife
07 de junho a 31 de julho de 2011

Espaço Cultural Correios Juiz de Fora
02 de agosto a 14 de setembro de 2013

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